Passar pela perícia médica do INSS é um momento decisivo para quem precisa se afastar do trabalho por incapacidade causada por doença. É comum que o segurado fique nervoso, com medo de “falar errado” ou não conseguir demonstrar, na prática, as limitações que realmente vive no dia a dia.
Por isso, preparar-se com antecedência faz toda a diferença. Neste artigo, reunimos dicas objetivas e importantes para quem vai realizar perícia médica para auxílio-doença (benefício por incapacidade temporária) ou aposentadoria por invalidez (benefício por incapacidade permanente).
1) Você é avaliado desde o momento em que entra na sala
Muita gente acredita que a perícia começa apenas quando o médico faz perguntas, mas a avaliação começa antes mesmo da primeira palavra.
O perito costuma observar pontos como:
- forma de caminhar;
- postura corporal;
- expressões de dor;
- uso de muletas, tala, tipoia ou outros suportes;
- aparência geral e sinais de desgaste (insônia, tremores, sonolência, etc.);
- como você senta e se levanta;
- se consegue se movimentar com facilidade.
Importante: isso não significa “fingir” nada, e sim compreender que o perito busca coerência entre o que você relata e o que ele observa.
2) Saiba explicar com clareza suas limitações (e não apenas a doença)
Um erro muito comum é o segurado focar em falar apenas o nome da doença. Mas o INSS não concede benefício somente porque existe um diagnóstico.
✅ A incapacidade é constatada pelas consequências da doença, ou seja, por aquilo que ela impede você de fazer no trabalho e na vida cotidiana.
Por isso, na perícia, você deve conseguir explicar com clareza:
- quais atividades você fazia no trabalho;
- quais movimentos ou esforços a doença te impede de realizar;
- quais tarefas se tornaram impossíveis ou perigosas;
- com que frequência sente dor, crise, falta de ar, tontura ou fadiga;
- se precisa de pausas constantes;
- se há risco de piora se continuar trabalhando.
Exemplo prático: não basta dizer “tenho hérnia de disco”.
O que importa é explicar: “não consigo ficar em pé por mais de 20 minutos, não posso levantar peso, tenho travamentos e dor que irradia para a perna, e isso me impede de exercer minha função.”
3) Os detalhes fazem a diferença: tudo precisa ser coerente
Na perícia, coerência é uma palavra-chave.
Não faz sentido, por exemplo, você dizer que sente dores fortíssimas no ombro, que não consegue elevar o braço ou carregar peso, e ao mesmo tempo comparecer à perícia:
- com uma bolsa claramente pesada no ombro;
- segurando sacolas;
- mexendo no celular com agilidade enquanto diz que mal movimenta as mãos;
- fazendo movimentos incompatíveis com o relato.
Isso não significa que quem tem dor não possa, em algum momento, realizar um movimento.
Mas contradições chamam atenção e podem prejudicar a avaliação, especialmente quando o perito tem poucos minutos para examinar o caso.
4) Leve seus documentos médicos organizados (isso é essencial)
Levar documentos “amassados”, misturados e sem ordem pode gerar confusão e enfraquecer seu pedido.
O ideal é apresentar tudo bem separado por tipo e em ordem cronológica.
✅ Organize assim (dos mais antigos para os mais recentes):
- Relatórios e atestados médicos
- Exames (ressonância, raio-x, tomografia, ultrassom, exames laboratoriais, etc.)
- Receitas e comprovantes de medicação
- Laudos de fisioterapia, psicologia, psiquiatria ou terapias
- Comprovantes de internações e procedimentos (se houver)
Dica prática: use envelope, pasta com separadores ou clipes com identificação (“exames”, “receitas”, “relatórios”).
5) Tenha atenção aos relatórios: eles precisam ser completos
Um bom relatório médico ajuda muito na perícia — e um relatório fraco pode atrapalhar.
O relatório ideal deve conter:
- diagnóstico com CID (se o médico incluir);
- data de início da doença;
- sintomas principais;
- tratamentos realizados;
- medicamentos em uso e efeitos colaterais;
- limitações funcionais;
- recomendação de afastamento e previsão de tempo (quando possível);
- assinatura e carimbo com CRM.
Quanto mais claro o relatório for sobre o impacto da doença na sua capacidade de trabalho, melhor.
6) Explique bem o uso de medicamentos fortes (e seus efeitos)
Muitas incapacidades não vêm apenas da doença, mas também dos efeitos colaterais do tratamento.
Alguns medicamentos podem causar:
- sonolência intensa;
- lentidão de raciocínio;
- tontura;
- queda de pressão;
- tremores;
- falta de coordenação;
- dificuldade de concentração e memória.
✅ Se esses efeitos atrapalham o seu trabalho, é importante dizer isso de forma objetiva, com exemplos do dia a dia, principalmente se sua função exige atenção, direção, operação de máquinas, esforço físico ou tomada de decisões.
7) Saiba descrever sua função e sua rotina no trabalho
O perito não conhece sua profissão como você conhece.
Então, é fundamental explicar de maneira simples e direta:
- seu cargo;
- suas tarefas diárias;
- se carrega peso;
- se trabalha em pé por longos períodos;
- se faz movimentos repetitivos;
- se usa escadas, agacha, dirige, caminha muito;
- se trabalha sob pressão ou com metas (em casos de doenças psiquiátricas).
Dica: pense como se você estivesse explicando seu trabalho para alguém que nunca viu aquela atividade.
8) Não exagere e nem minimize: seja sincero e objetivo
A perícia não é um “teatro”, mas também não é o momento de tentar parecer bem quando você não está.
✅ O ideal é:
- falar com calma;
- relatar sintomas reais;
- explicar o que você consegue e o que não consegue fazer;
- mencionar crises, pioras e limitações com exemplos concretos.
❌ Evite frases genéricas como “não consigo fazer nada” (se isso não for verdade), porque pode gerar desconfiança.
Prefira: “não consigo carregar peso”, “não consigo permanecer sentado por muito tempo”, “tenho crises 3 vezes por semana”, etc.
9) Leve um acompanhante, se necessário (e permitido)
Se a pessoa tem:
- crises de ansiedade ou pânico;
- dificuldade de locomoção;
- confusão mental;
- limitações graves;
um acompanhante pode ajudar no deslocamento e na organização, além de oferecer segurança emocional.
✅ Dica importante: se houver real necessidade de estar acompanhado, é altamente recomendável que isso conste em algum relatório médico, indicando que o paciente precisa de suporte de terceiros para locomoção, orientação, comunicação ou segurança. Isso ajuda a justificar a necessidade do acompanhante e reforça a gravidade das limitações no momento da perícia.
Porém, o foco da perícia será sempre a avaliação do segurado, então o ideal é que você esteja preparado para responder.
10) Chegue com antecedência e evite situações que aumentem seu nervosismo
Atrasos e correria elevam ansiedade e prejudicam seu desempenho ao explicar o caso.
✅ Recomendações simples:
- chegue com antecedência;
- use roupas confortáveis;
- não esqueça documento com foto;
- mantenha seus papéis organizados e de fácil acesso.
Conclusão: preparação e coerência são decisivas na perícia do INSS
A perícia médica é um procedimento rápido e técnico, em que o médico precisa decidir se existe incapacidade para o trabalho com base em documentos, exame clínico e coerência do relato.
Por isso, as melhores estratégias são:
✅ organizar documentos;
✅ entender suas limitações e explicá-las com clareza;
✅ manter coerência entre o que fala e o que demonstra;
✅ apresentar relatórios médicos completos;
✅ agir com sinceridade e objetividade.
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Um advogado especialista pode analisar seus documentos, orientar sobre provas médicas e, se necessário, buscar a revisão ou concessão do benefício pela via administrativa ou judicial.